terça-feira, 24 de maio de 2016

Como dançarina mascarada, desnuda, de cara tampada me olham apenas corpo. Bunda de rebolar e sentar e esperar. Pernas de correr atrás, ir onde mandam. Braços de abraçar e acolher. Mãos de ajudar e acenar. Por entre cabelos, máscara e maquiagem, vêem ouvidos de escutar. Bochechas de apertar e apanhar. E, o mais exigido, lábios de sorrir e satisfazer com palavras - só as que querem ouvir - e beijos que quiserem receber. Obediente, sigo os comandos, cabeça baixa. Cansada, tenho as funções comprometidas e começo a me desmontar. Me desfaço me refazendo em mim mesma. A versão real. Aquela que não é da vida mas quer viver, Aquela que se importa, ama, chora, precisa. Que enxerga pessoas, que entende melhor pelo silêncio que pela fala, que olha nos olhos. Aqueles portas d'alma. Portas que entro sempre que permitem, sempre que precisam, sempre de bom grado.
Minhas portas, que tinham o costume de estarem fechadas, encontram-se abertas à espera de quem queira espiar, olhar e enxergar. Que venham novos olhos de ver pois os que viam escolheram cegar.

Ferreira.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Você convenceu
Venceu a barreira que montei
Tijolinho por tijolinho
Com massa virada molhada em suor

Você padeceu
Apreendeu em mim a loucura
Delírio a delírio
Com risos fingidos, fugia o pior

Você amoleceu
Escreveu em mim uma estória
Versinho a versinho
Com letras tremidas, um poema só

Você subverteu
Destorceu em mim o conto de fadas
Folhinha a folhinha
Com a mudez fria, um beijo uó

Você esqueceu
Escreveu egoísmo
Mudinho, mudinho
Com a cara limpa, que feio, que dó.

Ferreira.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

De verdade, disse sim
A tudo o que você pode me dar
A tudo o que você me faz ser
Por querer renascer

Meus sonhos se tornando realidade
Porque você está aqui
Me dando mão, ombro e coração

De tantos planos que fiz
Você é meu melhor sonho
Que eu quero estar quando acordo

As palavras de desabafo não me vem mais
Pois não há dor
Não há dúvidas
Não há confusões
Não pra alimentá-las

Tudo parece ser certo
Se combinado com você
Os planos, fazemos encaixar
Sem forçar, obrigar, brigar
Onde não há encaixe, desenhamos de novo
Como artistas inspirados
Fazendo tudo mais bonito
Nessa vida cinza de fumaça
Tudo anda limpo e colorido
Você é luz, matiz

22/09/13

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Chutando o balde

Do nada o mundo para. O falatório cheio de razão chega aos ouvidos como um apito fino, daqueles apitos para chamar cachorros. E todas as atitudes que antes eram certas se tornam tolices impostas por outrém. Não era isso o que eu queria fazer. Não era nada disso o que eu queria ser. Mas a ideia de ser o certinho, "bom moço", era mais forte que o instinto de ser eu mesmo. Essas tolices já não tem o mesmo gosto. Já não fazem mais sentindo. É hora de viver os últimos segundos como devem ser. Herói e vilão? Não tem mais definição. É hora de sentir o sabor do que se quer; com um tempero do proibido fica mais gostoso. O que hoje é lei, amanhã pode mudar. Então é tempo de ignorar e seguir o instinto de ser o que se quer ser. De chutar o valentão da loja. De baixar a bola do bambambam da esquina. Vou atear fogo em carros e lutar pelo o que acho certo. O relógio está tiquetaqueando. E nada disso está ao meu favor.

Ferreira.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

As pessoas acham que é só piscar
que as coisas se arrumam em seu lugar
parece que é só pensar
pra essa zona se ajeitar
Quem dera
Estalar os dedos, a cabeça no lugar
Depois de um espirro, não mais chorar
Num acordar, o bicho papão matar
Num tropeçar, não transbordar

A magia eu sei de onde vem
Mas o livro de feitiços anda velho
As letras apagadas e páginas rasgadas
A varinha está cansada
De sorrisos forçados
E pés calejados
Quem dera
Estalar os dedos, não mais chorar
Depois de um espirro, cabeça no lugar
Num acordar, o pesadelo acabar
Num tropeçar, continuar a andar...

Ferreira.

domingo, 27 de outubro de 2013

Vi um portal e atravessei
Fui pr'a um mundo colorido
Com todas as cores do branco
Com desenvoltura de Nanaê
Oxum, Oxossi e Iemanjá
Rodando a nos benzer
E quando voltei, voltei sem querer
Sem saber o que beber, comer ou dizer
E eis que surge você
Que nada diz do meu querer
Só desbalança o eixo
Deixa cair o queixo
Não por ti ou teu desleixo
Só por me trazer lembranças
Lembranças de tempos outroras
De uma vida remota
Lembranças...

01:32

Borin.
Não queria admitir
minha maior alegria
minha melhor companhia
é minha solidão.

Nela me escondo
me camuflo como mato
talvez, bicho-do-mato
talvez apenas Colombo
descobrindo meu único mar
meu porto singelo
meu refúgio banguelo
àquele com os dentes amarelos

Talvez uma moça na noite
uma donzela bonita
procurando seu querer
seu desejo que nem mesmo se sabe o que
que um dia talvez encontre, ou não.

Mas eis que sua dádiva se dá por se ser
Ser àquela que não se sabe o porquê.

01:20

Borin.