Como dançarina mascarada, desnuda, de cara tampada me olham apenas corpo. Bunda de rebolar e sentar e esperar. Pernas de correr atrás, ir onde mandam. Braços de abraçar e acolher. Mãos de ajudar e acenar. Por entre cabelos, máscara e maquiagem, vêem ouvidos de escutar. Bochechas de apertar e apanhar. E, o mais exigido, lábios de sorrir e satisfazer com palavras - só as que querem ouvir - e beijos que quiserem receber. Obediente, sigo os comandos, cabeça baixa. Cansada, tenho as funções comprometidas e começo a me desmontar. Me desfaço me refazendo em mim mesma. A versão real. Aquela que não é da vida mas quer viver, Aquela que se importa, ama, chora, precisa. Que enxerga pessoas, que entende melhor pelo silêncio que pela fala, que olha nos olhos. Aqueles portas d'alma. Portas que entro sempre que permitem, sempre que precisam, sempre de bom grado.
Minhas portas, que tinham o costume de estarem fechadas, encontram-se abertas à espera de quem queira espiar, olhar e enxergar. Que venham novos olhos de ver pois os que viam escolheram cegar.